Identificar cedo as barreiras linguísticas pode mudar a trajetória escolar de uma criança
Quando uma criança demora a responder, não compreende um comando, escreve pouco ou evita a leitura, a explicação mais rápida costuma ser falta de atenção, desinteresse ou preguiça. Esse julgamento, além de injusto, pode atrasar a identificação de uma dificuldade de linguagem que interfere diretamente na aprendizagem. Antes de cobrar mais esforço, é preciso se perguntar: essa criança compreendeu o que ouviu, conseguiu organizar a informação e encontrou palavras para responder?
A linguagem oral sustenta grande parte da vida escolar. É por meio dela que o estudante aprende conceitos, acompanha explicações, formula hipóteses, interpreta problemas e constrói sentidos durante a leitura. Vocabulário restrito, dificuldade para elaborar narrativas, compreender inferências ou seguir instruções extensas podem aparecer, mais tarde, como baixa compreensão leitora, respostas incompletas e produção escrita pouco desenvolvida. O problema nem sempre está em reconhecer as letras; muitas vezes, está em compreender e organizar o que elas comunicam.
Uma pesquisa populacional realizada no Reino Unido estimou em 7,58% a prevalência de transtorno de linguagem de origem desconhecida entre crianças no início da escolarização. O estudo, conduzido por Norbury e colaboradores (2016), envolveu o rastreamento de 7.267 crianças de 4 a 5 anos em escolas de Surrey, na Inglaterra. Em termos práticos, os próprios autores estimam que isso corresponde a aproximadamente duas crianças em cada turma de 30 alunos.
O cenário brasileiro reforça a relevância do tema. Dados do Indicador Criança Alfabetizada, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que o percentual de estudantes da rede pública alfabetizados ao final do 2º ano do ensino fundamental passou de 59,2% em 2024 para 66% em 2025. O avanço superou a meta nacional estabelecida para 2025, de 64%. Ainda assim, cerca de 34% dos estudantes avaliados não atingiram o padrão nacional de alfabetização.
Esse resultado não pode ser atribuído a uma única causa. Ele evidencia, porém, a importância de fortalecer as condições que sustentam a aprendizagem da leitura e da escrita, incluindo o desenvolvimento da linguagem oral, do vocabulário, da consciência fonológica, da compreensão e da capacidade de realizar inferências, articulados ao ensino sistemático das relações entre sons da fala e sua representação escrita.
A boa notícia é que a escola pode agir. Uma síntese de 188 estudos realizada pela Education Endowment Foundation associou intervenções de linguagem oral a um ganho médio equivalente a seis meses adicionais de progresso, sobretudo em compreensão leitora. Conversas planejadas, leitura compartilhada, ensino de palavras novas, reconto de histórias e explicitação dos comandos devem integrar o currículo, não aparecer apenas quando o aluno já fracassou.
Também é necessário observar sinais persistentes, como dificuldades para compreender perguntas e instruções, aprender e recuperar palavras, organizar e contar acontecimentos em sequência, compreender linguagem figurada e expressar ideias de maneira clara e organizada. Esses sinais, isoladamente, não estabelecem um diagnóstico, mas podem indicar a necessidade de diálogo com a família e de avaliação especializada. A investigação deve considerar o desenvolvimento da linguagem e outros fatores capazes de interferir no desempenho da criança, incluindo aspectos auditivos, cognitivos, emocionais e educacionais.
Alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar (relacionar letra e som). É garantir que a criança tenha linguagem para pensar, compreender e participar. Quando saúde e educação trabalham juntas, substituímos rótulos por estratégias e devolvemos ao estudante algo essencial: a possibilidade de aprender sem ser confundido com alguém que não quer aprender.
Referências
NORBURY, C. F. et al. The impact of nonverbal ability on prevalence and clinical presentation of language disorder: evidence from a population study. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 57, n. 11, p. 1247-1257, 2016. DOI: 10.1111/jcpp.12573.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Inep lança publicação que detalha a construção do Indicador Criança Alfabetizada e os desafios da educação básica no país. Brasília: Inep, 21 ago. 2026. Atualizado em 3 set. 2026. Disponível em: página oficial do Inep. Acesso em: 21 set. 2026.
EDUCATION ENDOWMENT FOUNDATION. Oral language interventions. Teaching and Learning Toolkit. Disponível em: Education Endowment Foundation. Acesso em: 21 set. 2026.
A autora é fonoaudióloga, doutora e mestre em Ciências da Educação e atua nas áreas clínica e educacional. Escritora.

Luciana Cordeiro Felipetto. Doutoranda e Mestre em ciências da Educação. Especialista em Linguagem e Fonoaudiologia Educacional pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. Autora dos livros A descoberta do mundo das letras, “Os desafios da Linguagem”, “O girassol Azul” e Beto: A história de um menino que conquistou seus sonhos e conheceu sua gagueira”.