A automedicação infantil é um hábito que preocupa os profissionais de saúde. Quando se trata de crianças com síndrome de Down (Trissomia 21), esse cuidado deve ser ainda maior. Medicamentos comuns, muitas vezes utilizados sem prescrição, podem provocar efeitos diferentes dos esperados e até agravar o quadro clínico.
O alerta é da pediatra Isabela Amaral, que chama a atenção especialmente para o uso da acetilcisteína, um medicamento conhecido por sua ação mucolítica, indicada para fluidificar secreções das vias respiratórias.
Segundo a especialista, o primeiro ponto que os pais precisam compreender é que a tosse não é uma doença, mas sim um importante mecanismo de defesa do organismo.
“Tossir é um mecanismo de proteção das vias aéreas. O objetivo do tratamento não deve ser simplesmente interromper a tosse, mas identificar a causa que está provocando esse sintoma”, explica.
Por esse motivo, medicamentos conhecidos como antitussígenos — aqueles destinados apenas a “cortar” a tosse — geralmente não são recomendados para crianças sem uma avaliação médica criteriosa.
Por que a acetilcisteína exige atenção na Trissomia 21?
Embora seja amplamente utilizada para tornar o catarro mais líquido e facilitar sua eliminação, a acetilcisteína pode não produzir o mesmo efeito em crianças com síndrome de Down.
A pediatra explica que pessoas com T21 apresentam características próprias no sistema respiratório. Entre elas estão alterações no funcionamento dos cílios das vias aéreas — pequenas estruturas responsáveis por empurrar o muco para fora dos pulmões — e uma tosse que costuma ser menos eficiente.
Nessas condições, o medicamento pode fluidificar a secreção, mas o organismo não consegue eliminá-la adequadamente.
O resultado pode ser justamente o contrário do esperado: o catarro permanece acumulado nas vias respiratórias, favorecendo obstruções, piora da respiração e aumentando o risco de infecções bacterianas.
Possíveis efeitos no equilíbrio do organismo
Outro aspecto destacado pela especialista envolve a ação antioxidante da acetilcisteína.
O medicamento estimula a atividade de enzimas relacionadas ao controle do estresse oxidativo. No entanto, em pessoas com síndrome de Down, algumas dessas enzimas já apresentam atividade aumentada devido às características genéticas da condição.
Por isso, segundo Isabela Amaral, o uso indiscriminado da medicação pode produzir um efeito contrário ao desejado, alterando o equilíbrio oxidativo do organismo.
O tratamento deve ser individualizado
Cada episódio de tosse pode ter uma origem diferente, como infecções virais, alergias, crises de asma, refluxo gastroesofágico ou outras condições respiratórias. Por isso, não existe um único medicamento capaz de resolver todos os casos.
A orientação da pediatra é clara: nenhum xarope deve ser administrado apenas por indicação de familiares, amigos ou informações encontradas nas redes sociais.
Antes de iniciar qualquer tratamento, os pais devem procurar o pediatra responsável pelo acompanhamento da criança para identificar a causa da tosse e definir a conduta mais segura.
Um recado aos pais
A mensagem deixada pela especialista é objetiva:
“Na dúvida, não ofereça nenhum xarope para tosse por conta própria. Converse sempre com o pediatra para definir o tratamento mais adequado.”
Para crianças com síndrome de Down, um acompanhamento médico individualizado faz toda a diferença. O uso correto dos medicamentos não apenas aumenta a eficácia do tratamento, como também reduz o risco de complicações respiratórias, uma das principais causas de internação nessa população.